Olhar
Nos olhamos, tudo congela por alguns instantes. Está frio, é inverno e bate um vento levando cabelo ao seu rosto, tocando suas bochechas, seus lábios, cobrindo parcialmente seus olhos. Fazia tempo que não os via. Contato visual fixo, boca entreaberta, sem palavras a serem proferidas. Pensamentos acalerados, respiração primeiro hesitante e depois profunda. Todas as memórias batem à porta, o coração pesa ao lembrar de tudo. Ânsia pelo toque, tentar se convencer de que é real. Será que é? Depois de tanto tempo, talvez não mais seja. Mesmo que fosse, será que seria igual? Maior a ânsia, impulso de correr uma até a outra, mas também de fugir, dar as costas, não lidar. Todos os sentimentos enterrados de repente voltando. Reboliço interior, confusão, a realidade dilata. Eu pisco. Ainda a vejo. Deve ser real. Não posso exibir reação, mas busco incessantemente alguma dela. Não há. Os músculos da minha face se retraem, tentando não se mover. Não posso demonstrar, não posso quebrar primeiro. A vejo discretamente buscar por ar com a boca, e sinto sua respiração no meu ouvido. Tensão, recordação, desejo. Será que seria igual? Tento afastar os questionamentos, sem sucesso. Há marcas que não vão. Quero estender a mão, quero alcançá-la. Sinto o vento rodopiar, sinto ele encostar em cada poro, sinto meu cabelo balançando como o dela. O mesmo vento que bate em mim, tambem a toca, nos unindo. E se eu a tocasse? O frio do lado de fora é contraposto pelo calor da ansiedade que me toma. E se eu falasse? Ainda turbilhão de pensamentos, não conseguiria os organizar. Meu corpo se move em direção ao caminho que já trilhava, sem meu aval, automaticamente. Agora preciso segui-lo, não posso voltar atrás. Voltaria atrás? Seguimos assim nossos respectivos rumos, marcadas. Não deve ter durado dois segundos, mas foi eterno. O tempo sempre foi uma questão pra mim. Ele passa e ele vai mas ele também volta, ora corre e ora se demora, fazendo trajetos inesperados, vertiginosos. Não sei o que fazer com tudo isso, mas agora sei que não estou sozinha. O quanto eu penso ela pensa, é uma prisão compartillhada, nos puxando para o passado. Quem vai ceder primeiro? Vence o orgulho ou o desejo? A autopreservação ou a curiosidade? Tenho medo de não reconhecê-la, medo de me demorar demasiadamente em seu rosto, procurando alguém que já não mora mais lá. Medo de me procurar nela, e medo de me encontrar. Cada rosto me é um labirinto, cada curva, cada esquina, cada textura e cada sombra me fascinam. Sou naturalmente atraída por eles. A olhava fixamente, tentando decorar cada sarda. Nunca consegui: sempre esqueço de algo, sempre deixo pra trás, sempre preciso olhar mais. Será que precisarei olhar mais? Me voltarão os olhares todos, ou os terei de reconstruir? Tenho medo de olhar demais, medo do meu olhar, medo do seu olhar. Medo de nos olharmos.

amei
que lindoo